O desespero de um comerciante diante das águas
Tenho 26 anos e desde que nasci moro na cidade de Poá (SP), região do Alto Tietê, uma cidade pequena e com ar de interior, mesmo estando apenas 27km da Capital. Meus pais possuem uma pequena loja de presentes no centro da cidade. É desta loja, de meus pais e de todos ali ao redor, que vou escrever.
Iniciando pelo dia 7 de janeiro, uma Quinta-Feira. O céu estava bem mais escuro do que de costume. Temeroso pela chuva que viria, meu pai fechou a loja às 14h e tentou ir para casa. Tentou. A tempestade o pegou no meio do caminho e ele parou no comércio de uns amigos até que o tempo desse uma trégua, o que não aconteceu pelos próximos 45 minutos.
O Córrego Guaió, que corta o centro da cidade, havia transbordado. Mas cerca de 3 meses antes isso havia acontecido sem grandes problemas. Então a chuva parece dar uma trégua.
Meu pai pega seu carro e tenta continuar seu caminho para casa quando se depara com uma rua alagada na parte baixa da cidade. Um ônibus que tentava passar tinha água até a metade da carroceria: só deu tempo de frear e mudar o caminho.
Ao saber das notícias, logo imaginei como estaria o centro da cidade. Peguei meu carro e segui o caminho pela parte alta até próximo à estação de trem. Neste caminho já pude observar o único viaduto que liga o centro alto da cidade ao baixo, completamente parado: o trânsito com motoristas debruçados nas proteções olhando em direção ao rio.
Parei o carro e segui a pé. Quando me dirigi até a passagem subterrânea de pedestres sob a linha férrea, observei que ela estava fechada. Nada mais racional, mesmo porque estava com água até o teto. Utilizei então a passarela de pedestres. Foi quando gravei esse vídeo e onde bateu o primeiro grau de desespero.
Uma garota fala ao celular: “… amor, meu carro está debaixo d’água na frente do posto de saúde, fui na farmácia e quando voltei, já não consegui chegar nele…”Esse diálogo me acompanhou durante o caminho até o próximo choque. Desci a passarela correndo feito louco, pensando em chegar até a loja de meus pais.
Minha preocupação era com a força das águas contra as portas de aço. E esta preocupação foi aumentando a cada passo. De uma das voltas do caracol da passarela, vejo 4 ou 5 carros boiando no estacionamento de um banco. Tento achar um caminho seco, mas é tudo água. Até que me viro e observo que beirando parte da linha do trem, conseguiria ao menos chegar ao posto policial, próximo dali e com vista para meu objetivo.
Pelo caminho, pessoas correm para todos os lados, parecendo não saber para onde iam ou como iriam. Os rostos estampados de preocupação. Enfim, cheguei ao posto da PM. Ali, a minha preocupação com a loja de meus pais DESAPARECEU. Não sinto vergonha em dizer que chorei. Chorei por ver a cidade que cresci neste estado.
Enquanto chorava, uma policial pediu que me acalmasse (ironia?) e me falava: “Qual é o seu carro!? Tiramos todos que conseguimos antes da água!” Soluçando, eu respondi que nenhum, que estava lá por causa da loja dos meus pais.
Já estava ali, molhado pela chuva que não parava. O que fazer? Nada. Não podia fazer nada a não ser olhar o rio ou rua. Olhar as pessoas que estavam nas portas tentando evitar que seus produtos saíssem boiando ou esperando que prefeitura chegasse para tirá-los dali.
Não sei, mas um denominador comum existia entre todos: o medo estampado na face. A água já começava a abaixar, quando tentei me aproximar para registrar o que estava acontecendo.
Um policial consegue chegar a uma parte mais alta para socorrer uma senhora presa no carro, quando alguns vendedores o alertaram que uma das placas que cobre o rio estava se desprendendo.
Foi um momento tenso, mas o policial fez seu trabalho. Decidi sair daquele local e ver a origem de tal enchente. Tentei chegar à parte em que o rio teve seu curso “coberto” pela cidade, sem sucesso. No caminho, os rostos preocupados continuavam a circular. Nunca imaginei ver algo assim em Poá. Desta vez gravei sem focar em nada, apenas no caminho que fazia.
Passei por um prédio onde funciona a Casa da Melhor Idade. Uma janela quebrada virou saída de emergência. Duas pessoas olhando para dentro, onde só havia lama e algumas cadeiras plásticas. Continuei a andar. Comentários ecoavam: “… minha casa deve estar com pelo menos 1,5 m… saí correndo de lá …” ou “… avisa a minha mãe que eu tô bem.” Lamentações pelo carro levado pela água eram as mais ouvidas, seguidas de “agradeça por você não estar nele”, proferidas pelos interlocutores.
Viro a esquina e fico pasmo ao ver as comportas (que deveriam proteger a cidade das enchentes) jogadas na calçada, retorcidas como papel amassado. O calçamento do centro, todo em ladrilho (o que colaboraria para a redução de impermeabilização do solo) arrancado e espalhado pelas ruas. Crateras nas calçadas. Carros jogados contra os postes. Tratores retirando pessoas que estavam presas em prédios públicos.
Assistindo com calma o vídeo em casa, apreciei o som da voz de um garotinho. Parecia chamar atenção para tudo que havia acontecido naquela tarde. Ele diz: “Moço! Vem ver! Vem ver, moço!” Isso me marcou. Neste momento, voltei para casa, peguei a chave da loja e retornei para lá para começar a limpeza.
Ao abrir a porta, mercadorias caem sobre mim. Penso em meu pai e minha mãe (que ainda estava em um ônibus, parados em um alagamento). Começo a limpeza, como todos os comerciantes e moradores dali, enquanto curiosos passam pela porta, olham e comentam sobre a quantidade de lixo que entrou no salão.
Vejo os caminhões da prefeitura removendo o lixo das ruas, além de mercadorias perdidas que os comerciantes empilhavam, móveis, roupas e tudo mais que os moradores, chorando ou esbravejando, retiravam de suas casas. Foram 3 dias de limpeza. Finalmente, dia 9 de janeiro as coisas começam a se organizar no comércio e nas residências no entorno… por pouco tempo.
Outras inundações ocorreram. Madrugada do dia 19, tarde dos dias 23 e 26 de Janeiro. Nestas, por sorte ou força maior, a chuva não entrou na loja. Outras casas e comércios não tiveram a mesma sorte. O sentimento de impotência perante a tal situação. A preocupação que tenho agora ao ver uma nuvem mais escura no céu.
Minha cidade debaixo d’água. Tudo isso me acompanhará para o resto da vida. Mas o que me acompanhará no dia a dia será a frase: “Moço! Vem ver! Vem ver, moço!” Esta frase, do meu ponto de vista, teve o papel de naquele momento chamar a atenção para as ações que tomamos no cotidiano e suas consequências.

