Consciência e Enchentes
Nasci na zona norte de São Paulo e, por ali, cresci e me mantive a maior parte do tempo até hoje. Sendo assim, a Marginal Tietê é parte integrante do álbum de figurinhas alagadas que carrego na memória. A zona norte, por acaso, sempre foi uma das regiões mais castigadas pelas incansáveis enchentes da terra da “garoa”. E a Marginal é a figurinha principal. Aquela cromada, carimbada, a mais difícil do álbum. O Pelé das chuvas. Primeiro, porque ela é a maior via da cidade e o principal elo de acesso das rodovias que desembocam em São Paulo; ela cruza a cidade do extremo leste ao extremo oeste, beirando a zona norte e a separando do centro e de todo o resto da cidade. Ou seja, para entrar ou sair da zona norte, tem que no mínimo cruzar a bendita. Então, não é difícil imaginar no que ela se transforma quando tem enchentes que fecham pistas, fecham pontes e tem milhares de caminhões, carros, motos, ônibus, pessoas tentando chegar em algum lugar. E o quanto isso fez parte da minha rotina.
Sirvo dessa introdução para começar a pensar no que realmente mais importa. Quando era menino, meu avô já me contava as histórias de 50 anos antes, dos alagamentos causados pelo córrego Mandaqui, onde hoje passa a avenida Eng. Caetano Alvares, vítima dos recentes temporais em fevereiro e que é afluente do Tietê. Ou seja, o problema é secular! No começo do século, já havia registros de grandes enchentes nesses mesmos lugares. Com uma diferença. Naquela época, era por falta de estrutura urbana. O rio subia e alagava, pronto. O problema de hoje é muito mais em função do lixo. Meu avô pescava no córrego Mandaqui e havia competições de remo no Tietê. Inacreditável, olhando hoje o que ele se transformou. E a grande burrice foi que, ao mesmo tempo em que canalizaram rios e córregos, construíram galerias de escoamento e etc, começaram a despejar ‘oficialmente’ o esgoto nos rios. É contraditório, pois ao mesmo tempo em que solucionavam o problema “o que fazer com a merda?”, agravavam a condição dos alagamentos.
Bom, é justo dizer que muito foi tentando e muito foi feito nas últimas décadas. Não sou jornalista, nem tenho o intuito, mas descobri que São Paulo tem um número gigantesco de galerias subterrâneas, algumas enormes beirando as marginais que são da primeira metade do século passado e que quase não tem utilidade, pois as vias de acesso a elas estão quase permanentemente obstruídas, devido ao excesso de lixo acumulado nos bueiros, bocas de lobo e sistemas primários de escoamento dos rios e córregos. E também foram canalizados praticamente todos os córregos da região metropolitana. Fizeram alargamento das encostas do Rio Tietê e a marginal foi ampliada e ampliada e ampliada…e se tornaram menos frequentes nos últimos anos os grandes alagamentos por essa região. Também foram construídos diversos piscinões em vários lugares da cidade, além de tentativas de processos de limpezas nos bueiros que acabaram sendo só superficiais. A cidade de São Paulo já não despeja quase nada de esgoto no Tietê, mas, por outro lado, Guarulhos despeja quase 100% de seu esgoto nesse. Então, muito ainda tem que ser feito e com muito mais eficiência, pois, quando vem temporais como os que vieram nesse começo de ano, parece não haver absolutamente nada possível para se fazer. Não tem como controlar. Principalmente por não usarmos a capacidade que temos de escoamento da água.
E não vou nem entrar nas regiões menos privilegiadas, porque aí o buraco é ainda mais em baixo, pois tem uma série de coisas que vem antes, como urbanização, saneamento básico e mais toda aquela sequência de necessidades primárias das quais todos os cidadãos deveriam poder gozar.
E também não vou me atrever a dizer o que deve ser feito exatamente. Afinal, não tenho nenhuma especialidade em engenharia, construção civil ou o quer que seja necessário para criar um processo eficiente e cabível para tentar resolver a questão das enchentes em São Paulo ou em qualquer outra cidade.
Então, o que poderíamos fazer nós, simples mortais e cidadãos comuns dessas cidades? Esse, na minha opinião, é o ponto mais importante de todos. Infelizmente, temos uma mentalidade atrasada. Na questão educação, realmente, nos portamos como Terceiro Mundo, ainda jogando lixo nas ruas. Por mais que se fale, por mais que se noticie, por mais que todos nós saibamos que o lixo não deve ser jogado nas ruas, nos bueiros, nos rios, ainda ele é jogado quase que como uma prática cultural. O cidadão faz o mesmo que o seu antepassado fazia. É inacreditável! Quando vêm os alagamentos, a quantidade de lixo, móveis, e todo tipo de objeto que se possa imaginar, que bóia nas enchentes é assustador. É vergonhoso. Mas esse lixo é nosso!
Nesse momento, um monte de gente pensa: “Não é meu. Eu não jogo lixo na rua!”. Confessa, você pensou. E eu pergunto: quantas pessoas você já conscientizou de que não pode jogar lixo nas ruas e nos bueiros? E não estou perguntando quantos amigos você repreendeu porque jogaram papel de chiclete na calçada e você se sentiu o super-cidadão. Estou perguntando quantas pessoas mais ignorantes você conscientizou de que se elas jogarem o sofá no rio, ele volta? E volta com milhares de litros de água suja e repleta de doenças? É, sim, um problema histórico de consciência. A nossa mentalidade é de esperar acontecer, para correr atrás e remediar. Infelizmente é assim. Olha o que aconteceu no Rio de Janeiro. Mais de duzentos mortos. Famílias mortas. Famílias destruídas. Sonhos esvaziados. Está certo, foi a maior chuva na história da cidade, não tinha como não alagar tudo. Mas não precisava morrer tudo isso de gente. Tinha como preservar a dignidade, a humanidade dessas pessoas, tinha como manter sonhos acesos.
Vamos ser sinceros: nós, a classe média e alta, nós que temos condição de estar lendo esse texto, nós nos emocionamos sinceramente, que nos sentimos abalados, nós choramos lágrimas verdadeiras pela tragédia. Mas quantos de nós realmente perderam algo significativo na tragédia? O que a enchente tirou de você? Perdeu um carro, provavelmente segurado. Sofreu um estresse enorme com o trânsito, falta de energia elétrica e possíveis momentos de pânico. Perdeu o sono, o humor, o horário, o compromisso, o trabalho. Mas o que nós perdemos de irreparável? Nós ainda temos nossas casas. Ainda temos nossas roupas, nossos eletrodomésticos, nossos documentos, nossas fotos, nossa memória. Ainda temos nossos pais, irmãos, maridos, esposas, nossas vidas. Quantas dessas mais de duzentas pessoas que morreram no Rio eram de classes privilegiadas? Uma, duas, nenhuma? Não sei o número exato, mas certamente não passa disso. Nós sofremos com a tragédia, mas essa tragédia atinge de modo fatal quase que exclusivamente a classe pobre.
Foram dezenas de deslizamentos de terra em morros do Rio e Niterói, muitos já constatados que estavam em situação de risco. Chegaram a fazer processos de urbanização em uma área em cima de um lixão! Não dá pra acreditar! O problema é que não é só culpa de má administração e de pura negligência dos políticos. Os moradores sabem da condição. E não saem. É claro que sempre concordaremos com a justificativa de não ter opção, mas no fundo não é só isso. É necessário criar condições de desapropriação e gerar uma conscientização de não ocupar encostas ou áreas de risco. Não é uma tarefa fácil, principalmente por que quem não tem condições de comprar uma moradia decente e se vê obrigado a buscar refugio nas favelas, que, no caso dessas cidades, sempre acabam subindo os vários morros existentes. Mas o cidadão precisa entender que se ele subir o morro sem o mínimo de condição urbana, ele pode fatalmente estar levando a família à morte. Será que mesmo com as condições patéticas de nossos abrigos, ainda não é melhor do que correr o risco de matar os próprios filhos? Penso que um abrigo seria a pior opção para poder fazer essa comparação. Mas ainda assim ela não é uma melhor opção do que o risco iminente? E por que não investir em melhorar consideravelmente a estrutura dos abrigos? Certamente é muito mais barato do que o que se gasta com reconstrução e desapropriação.
Por isso, volto novamente à mentalidade. É atrasada, é reparativa, não é de longo prazo. Nem a dos governantes, nem a dos cidadãos. Todos os levantamentos recentes apontam que é absurdamente mais barato fazer um trabalho de prevenção do que o que se gasta para reconstruir o que foi perdido. Mas por que não é feito? Por sujos interesses políticos, por uso incorreto ou indevido da verba pública, por negligência dos cidadãos que não cobram devidamente das autoridades e, na maioria das vezes, também não fazem a sua parte. Temos que ter a clara consciência que esse é um problema de todos nós e que temos que assumir uma postura mais social. E não só fazendo doações às vítimas, o que é muito válido e importante, mas principalmente fazendo algo real e palpável para que os danos possam ser menores na próxima vez. Como? Fazendo a sua parte, desde não jogar nada nas ruas até a coleta seletiva; conscientizando quantas pessoas você puder sobre o que podem fazer para ajudar; apoiar movimentos e instituições que cobrem ações do governo, além de levar consciência de responsabilidade aos menos favorecidos. É uma questão de consciência: é necessário nos conscientizarmos que temos tanta responsabilidade quanto o prefeito, o governador ou o presidente – e levar essa sensibilização a quantas pessoas pudermos.
Além de tudo o que já foi dito, é sempre bom lembrar que hoje em dia entra em pauta nessa discussão o efeito estufa, o aquecimento global e toda a perspectiva de que a natureza deve responder com mais violência ainda nos próximos anos. Ou seja, não podemos contar que no ano que vem vai chover menos que esse ano, e assim por diante, a não ser que realmente a gente assuma a responsabilidade. Ou então, é bom já começarmos a ter canoas nas garagens e palafitas nos quintais. Pois é para onde caminha nosso futuro. Para a imersão!
E agora, vamos esquecer tudo o que aconteceu esse ano, e nos anos anteriores, e esperar pelo verão seguinte?
Faça o que lhe for possível, que talvez seja o suficiente se todos também fizerem. Não polua, não negligencie, leve a consciência limpa adiante, apoie movimentos importantes como esse. E, quem sabe assim, com essa consciência, com esse espírito, a mãe natureza talvez não nos dê outra chance. Talvez com o rumo que o clima mundial está tomando, mesmo que nós façamos tudo, é possível que ainda assim não aguentemos com as forças da natureza. Mas, se fizermos tudo e aguentarmos, certamente deixaremos muito mais ferramentas para as próximas gerações saberem o que fazer e o que não fazer.
Não sou um burocrata, nem político. Não sou um homem de exatas, de números e não sou bom com fórmulas. Por isso, meu apelo é humano. Sou apenas um ator, um cidadão comum, um brasileiro qualquer que espera poder mostrar esse mundo para os filhos, se a natureza permitir. E para os netos, se a velhice permitir. E você, o que pretende mostrar para seus filhos e netos? A escolha é nossa. A responsabilidade é nossa.


O dinheiro que nós pagamos de taxas sobre tudo vai para aonde? Os governantes do nosso País ainda acham que estão fazendo um favor. Vivem na mordomia com o nosso dinheiro ninguém se manifesta e tudo sempre termina numa boa! Há lembrando quando o bicho pega aí o individúo ja tá pedindo pra sair.Porque será hein? O que esta caindo pelas encostas é o lixo debaixo do tapete. O cidadão se é que podemos chamar de cidadão aparece na tv paparicando os que tem dinheiro e prometendo mundos e fundos para os pobres e todos caem achando que tudo vai melhorar.E a história se repete a cada 4 anos e assim vai sempre a mesma coisa . Até quando o povo é quem decide.